Revelo já
ao caro leitor que este artigo é uma análise do programa televisivo chamado
Masterchef. Sem mais delongas entremos no assunto que nos interessa.
O paladar, o olfato e o tato são
sentidos mais distantes da razão e, portanto, mais grosseiros e próximos de
nossa natureza animal. Não obtemos muitos conhecimentos a partir deles; não é
com eles que contemplamos o belo etc. Como parte de nossa natureza são,
obviamente, úteis para o cumprimento de importantes funções. São também fonte
de prazeres e estes precisam ser moderados pela virtude da temperança para que
o homem, no cumprimento de suas funções animais, não se afaste de seu fim
último (Paraíso). O anseio desmedido de satisfazer o paladar é uma desordem
contra a qual nos previnem os santos com seus salutares conselhos e igualmente
com seu próprio exemplo. Leiamos a propósito o que nos diz São Francisco de
Sales: “Em seguida, não é pequena
mortificação submeter em tudo o seu gosto e sujeitá-lo a todos os pratos, e,
enfim, esta maneira de mortificação não é ostensiva, não incomoda a ninguém e é
inteiramente conforme às regras da civilidade. Rejeitar uma iguaria, para comer
outra, examinar e estar a escolher dentre todos os pratos, não achar nada bem
preparado e limpo bastante e outras coisas semelhantes – tudo isso denota uma
pessoa mole, gulosa e pouco mortificada.”[1]
Não se
deve, no entanto, cair num rigorismo, afirmando que qualquer arte culinária ou
esmero no preparo da comida sejam condenáveis em si mesmos. As virtudes atuam em
conjunto, e a temperança deve ser auxiliada por outra virtude cardeal: a
prudência. Dessa forma se poderá julgar, nas variadas situações, o que
ultrapassa ou não os limites estabelecidos pela razão.
Tendo em vista o que foi dito,
devemos nos perguntar: o programa Masterchef incentiva a temperança? Evidentemente
não. Outra pergunta: o Masterchef mantêm-se nos justos limites de repassar
técnicas culinárias? Evidentemente não, pois o caráter culinário do programa é
claramente ofuscado pelo seu caráter de entretenimento.
Outra coisa interessante a ser
notada nesse programa é o modo como nele se dá as relações de autoridade. Num
mundo onde a autoridade legítima é contestada o tempo inteiro; onde a
obediência muitas vezes é erradamente tratada como vício e não como virtude,
eis que surge um programa onde três sumidades gastronômicas são obedecidas
bovinamente e seus juízos, repreensões, apreciações etc. são acatados como
verdades absolutas. Isso é deveras notável, sobretudo num mundo que ousa
questionar até mesmo a Verdade revelada por Deus. E tudo isso num campo que
permite ampla dose de opinião, a saber, o paladar. “Sim, chef”, “não, chef”;
“ok, chef”; “entendi, chef” tudo isso sob o guante de um relógio dramático que
os fustiga e a apreensão de receber como recompensa de seus esforços aqueles
epítetos depreciativos característicos do programa.
Estamos diante de um entretenimento
fútil, característico de uma época que rejeitou o absoluto verdadeiro e tenta
então buscá-lo onde ele não existe.
É assim que vc pensa então?
ResponderExcluirKKKKKKKKKKKKKK.
Excluir