“...um anjo do Senhor
apareceu em sonhos a José e disse: ‘Levanta-te, toma o menino e sua mãe e foge
para o Egito; fica lá até que eu te avise, porque Herodes vai procurar o menino
para o matar.’ José levantou-se durante a noite, tomou o menino e sua mãe e
partiu para o Egito.” (Mateus 2, 13- 15)
Todas as noites meu pai conferia as
portas para certificar-se de que estavam de fato trancadas. Costumava tomar
outros tipos de precaução como colocar travas extras. Havia, além disso, um artifício
muito interessante que ele utilizava e que consistia no seguinte: ele apoiava o
encosto da cadeira na porta, de modo que a cadeira ficasse equilibrada em
apenas dois pés, caso um malfeitor tentasse entrar, necessariamente faria a
porta mover a cadeira fazendo-a cair, causando um estardalhaço que o acordaria.
Lembro também de que durante muitos anos ao chegar eu em casa à noite, vindo da
escola ou da casa de algum amigo, ouvia dele inexoravelmente a pergunta “trancou o portão?” Às vezes eu o
interpelava dizendo que era inútil trancar o portão, pois se o ladrão quisesse
entrar ele poderia facilmente pular o muro, pois este era baixo; ele então me
respondia que trancar o portão ao menos dificultaria a ação do bandido.
Hoje quando acordo de madrugada e
vejo todos dormindo profundamente, assalta-me no âmago da alma esse aspecto
solitário da paternidade. Às vezes ouço barulhos que não significam nenhum
perigo, mas deixam-me atento, tenso e preocupado; então imagino lutas, planejo
defesas e agressões contra um malfeitor que espero nunca encontrar. Enquanto
isso minha esposa e as crianças dormem tranqüila e despreocupadamente.
Confesso que não entendia meu pai,
achava desnecessária toda sua preocupação. Hoje o entendo perfeitamente e o
senhor, caro leitor, o entende se já é pai ou o entenderá se um dia chegar a
sê-lo. Estaremos então unidos solidariamente no augusto ofício da proteção,
nesses momentos em que alertas interrogamos os barulhos da noite. São José seja
sempre nosso modelo, amparo e guia. Salve Maria!
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