Grande
diferença há entre a majestade de Nosso Senhor manifestada em sua vida e aquela
que se há de manifestar em sua segunda vinda. Em geral os triunfos de Cristo
enquanto andou neste mundo foram triunfos de humildade: o nascimento numa
manjedoura; a entrada em Jerusalém; a morte na cruz etc. Mas assim como a
humildade está, na verdade, acima de todas as vaidades e vícios deste mundo
corrupto, chegará o grande dia em que a Verdade virá cobrar seus direitos
vilipendiados ao longo da história e a Humildade ocupará o lugar de Juiz. É a
mesma Humildade que brilha nos dois momentos: no primeiro servindo e exortando;
no segundo julgando. E assim Deus veio ao mundo como um menino, mas no último
dia voltará como justo Juiz. Num auge de aclamação Ele vai ao encontro do povo
montado num pequeno jumento, mas voltará no Juízo Final sentado num Trono
magnífico.
A Glória escondida para que o homem
não tema e creia nEle pela virtude da Fé; a Glória ostensiva e colossal para
julgar: aterradora para os que não creram e consoladora para os que creram e
obedeceram. Quem o seguiu em seus passos humildes não será confundido quando o
vir vestido de Majestade.
Um jumento que nunca fora montado...[1]Para
um rei diferente de todos os outros uma montaria diferente de todas as outras:
para os reis do mundo cavalos treinados; para o Rei do Céu um jumento sem doma;
para os reis do mundo cavalos guerreiros e ricamente adornados; para o Rei do
Céu um pequeno jumento indefeso e adornado pela piedade popular. Os homens
estabelecem reinos efêmeros com cavalarias ruidosas e exércitos numerosos; o
Rei do Céu inaugurou o Reino Eterno com um jumento filhote (ou quase) e doze
apóstolos que nem guerreiros eram, mas pescadores. De fato: “Não se deleita com a força do cavalo, nem
se compraz nos pés do homem. Agradam ao Senhor os que o temem, os que confiam
na sua bondade.”[2]
Diz o texto sagrado que Deus
precisou do pequeno jumento.[3]
Como? Deus precisou de algo? De fato precisou, sem dúvida. Porém, diferente de
nós, Deus precisa porque quer
precisar. Deus, portanto, quis precisar do pequeno animal. Se quis Ele precisar
de um pequeno jumento, não quererá precisar de nós? Nós, feitos à sua imagem e
semelhança? Nós, por quem derramou seu precioso sangue? Que consolação! Deus
quer precisar de nós! Ainda que não portadores das mesmas virtudes que aquele
bom jumento; ainda que não tão obedientes; não tão humildes; ainda que nem
pequenos e nem jumentos cheguemos a ser, mas cavalos pavoneados — e finalmente,
ainda que já tenhamos sido montados inúmeras vezes pelos mais indignos
montadores: os pecados.
Pela Graça podemos nos assemelhar
àquela humilde montaria que tanto agradou ao Senhor; pela Graça podemos nos
livrar do cabresto do demônio para nos vestir com os arreios do Bom Pastor. E
se Ele transformou água em vinho; multiplicou pães e peixes; ressuscitou mortos
etc. poderá também mudar cavalos rebeldes em pequenos e humildes jumentos nunca
montados.
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