São
Francisco de Sales em seu famoso livro “Filoteia” nos ensina que os seres e os
acontecimentos deste mundo nos falam sobre Deus numa linguagem muda, mas muito eloqüente.
Concedamos agora a palavra ao Santo para que possamos entender do que se trata:
“Recebendo
Santo Antão uma carta muito honrosa do Imperador Constantino Magno, e causando
isso muita admiração aos religiosos, seus companheiros, o santo lhes disse: ‘Por que vos admirais que um rei escreva a
um homem? Admirai antes a bondade infinita do Deus eterno pelos homens mortais,
tendo-lhes escrito Ele mesmo a sua lei e falado a eles pela boca do seus
próprio Filho.’
São Francisco, notando num rebanho de bodes e cabras uma
única ovelha, ponderou a seu companheiro: ‘Olha
como ela é mansa e bela! Assim era também a brandura e mansidão do humilde
Jesus no meio dos escribas e fariseus.’
...
São Francisco de Borja, duque de Candia, este varão ilustre
de nossos tempos, servia-se de todos os acontecimentos da caça para fazer pias
reflexões. ‘Admirava-me, dizia ele um
dia, depois da caça, a docilidade dos falcões, que tornam à mão dos caçadores,
se deixam vendar os olhos e prender à percha, e espanta-me a indocilidade cega
dos homens, sempre rebeldes à voz de Deus.’
...
Eis aí, Filoteia, como de tudo o que acontece nesta vida
mortal se podem deduzir pensamentos salutares e santas aspirações. Oh! Infelizes
daqueles que usam das criaturas de um modo contrário à intenção do Criador. Bem
–aventurados aqueles que procuram em tudo a glória do Criador e que usam da
vaidade das criaturas para glorificar a verdade incriada.”
(Filoteia, São Francisco de Sales, Parte II – Capítulo XIII).
Quero nesta ocasião aproveitar o
ensinamento dado por São Francisco de Sales e refletir sobre algo que está
muito presente em meu cotidiano. Eu aprecio observar as crianças e refletir
sobre seu comportamento. Busco assim entender por que Nosso Senhor nos mandou
ser como elas e a quais aspectos da natureza infantil devemos nos ater. Embora eu
não seja capaz de responder integralmente a questão, espero ao menos contribuir
com algo.
Poderíamos enquadrar as brincadeiras
em vários tipos:
1- Brincadeiras contemplativas: são
as brincadeiras que visam apenas a fruição da beleza de certos processos
naturais ou artificiais, por exemplo: fazer bolhas de sabão ou estourar
bombinhas.
2- Brincadeiras artísticas: são
aquelas que imitam certas artes como pintura, escultura etc.
3- Brincadeiras ficcionais:
brinquedos e outros objetos são utilizados para criar situações hipotéticas e
imaginárias.
4- Brincadeiras desafiadoras: a
criança procura ver se é capaz de fazer determinadas coisas como se equilibrar
em algum lugar, pular de um lugar alto etc.
5- Brincadeiras competitivas.
6- Brincadeiras de diversão pura e
simples: por exemplo, andar de bicicleta.
Essa classificação que inventei acima
não tem muita utilidade para o que quero dizer neste texto, mas a coloquei porque
achei interessante e pode ser que venha a ter alguma utilidade ao ajudar o
leitor a imaginar as brincadeiras e assim entender melhor as reflexões que
farei a seguir.
Analisando as brincadeiras pode-se notar
que elas possuem uma semelhança com as atividades desenvolvidas na vida adulta,
mas não é sobre isso que quero falar; a pergunta que cabe aqui é “o que as
brincadeiras têm a ver com a finalidade da vida humana?” A resposta que dou é a
seguinte: as brincadeiras estão, olhando por certo ângulo, mais próximas do
Paraíso que as atividades eminentemente adultas. Muito cuidado, pois não
defendo aqui, obviamente, que os adultos devam agir como crianças e toda essa
patacoada sentimental que ouvimos por aí; faço apenas algumas ponderações, um
tanto livres é verdade, que possam nos levar a ver semelhanças entre o Paraíso
e as brincadeiras, sabendo, contudo, que “Coisas que os olhos não viram, nem os
ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem
preparado para aqueles que o amam.” (I Coríntios 2, 9). Feitas essas
ressalvas e pedindo que se utilize o bom senso tratemos de provar o que foi
dito.
O primeiro aspecto que quero ressaltar
é que as brincadeiras infantis são pura fruição, quase sem mescla alguma de
trabalho ou esforço. Como as crianças não possuem quase nenhuma
responsabilidade, passam o tempo brincando e tudo o que fazem é como se fosse
parte de suas brincadeiras. Quando eu era garoto, por exemplo, jogava bola
debaixo de um sol escaldante e não sentia nenhum desconforto. Já o lazer adulto
é mesclado de trabalho, esforço e certo tédio. O Paraíso é pura fruição: sem
trabalhos, sem esforço e sem tédio.
As
crianças brincam porque é prazeroso, mas deve-se lembrar que ainda não possuem
uma consciência bem formada, de modo que são impulsionadas para a brincadeira
seguindo um impulso de sua própria natureza infantil e não por uma escolha
plenamente deliberada. E ao agir assim, a criança nos indica que a natureza
humana foi criada para uma felicidade sem fim e sem malícia; uma felicidade
inocente e infinita. O Paraíso é uma felicidade sem fim e sem malícia; uma
felicidade inocente e infinita.
A
criança dificilmente se cansa de brincar. Essa energia inesgotável das crianças
é abordada por Chesterton em seu livro “Ortodoxia” e comparada ao fato de que
também a Providência divina nunca se cansa de governar o mundo; assim como a criança
diz “de novo, de novo” diante de uma brincadeira, Deus também diz “de novo” a
cada instante, mantendo assim as coisas no Ser. É impossível se cansar do
Paraíso.
O
adulto sente-se entediado com muito mais facilidade, pois várias coisas, em si
encantadoras, lhe parecem triviais; já experimentou muitas mudanças e se
acostumou a elas; tem uma sensibilidade maior para os limites desse mundo e sua
caducidade. A criança se encanta mais facilmente, pois para ela muitas coisas
ainda são novidade e, certamente, é mais fácil contemplar aquilo que é
novidade. O Paraíso é o encanto de uma eterna, infinitamente bela e magnífica
novidade.
O
adulto deseja o sono. A Criança dificilmente deseja o sono, ela deseja o
descanso, mas o descanso das brincadeiras. E nisso também as crianças fazem
lembrar o Paraíso, pois este não é o descanso do sono, mas o descanso de uma
contemplação sem fim.
Todos
nós, com exceção de Maria Santíssima, fomos feridos pelo pecado original. As
crianças também possuem inúmeras imperfeições, mas é inegável que possuem uma
pureza e uma inocência características. Parecem-me sinais deixados por Deus
para que pudéssemos sempre nos lembrar do que significa a santidade. De fato
tudo nelas parece estar mais próximo do Paraíso e é impressionante ver como
aderem facilmente ao amor divino. O Paraíso é o amor divino.
As
brincadeiras das crianças podem nos fazer recordar do que há de mais sério
nesta vida.
Parabéns pela postagem!
ResponderExcluirAh as crianças... 🙏🏾🙏🏾🙏🏾
Muito obrigado! Observando as crianças pode-se aprender muitas coisas. Salve Maria!
ExcluirÓtimo texto! Mesmo estando acostumada com sua escrita sempre me surpreendo com as novas postagens. Esse texto em especial me cativou pela sua genuinidade e a forma simples que você abordou o tema. As crianças realmente tem muito a ensinar. Obrigada pelo texto e por estar postando com mais frequência ;)
ResponderExcluirMuito obrigado! Minha nova meta é postar um artigo por semana, por enquanto estou conseguindo. Salve Maria!
ExcluirParabéns pelo artigo!
ResponderExcluirAcredito que o senhor já tem conteúdo para um segundo livro :D
Muito obrigado pelo apoio! Realmente espero escrever mais livros se for da Vontade de Deus. Salve Maria!
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