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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

OLAVO NEM SEMPRE TEM RAZÃO


            Em 2015 escrevi um texto apontando os erros de Olavo de Carvalho contra a Fé. Minha conclusão foi que sua filosofia não é segura. Ninguém [1] até agora apresentou qualquer refutação respeitável contra o artigo em questão. As falhas que apontei são reais e qualquer um pode chegar às mesmas conclusões que eu, caso pare para refletir seriamente sobre as questões que levantei. Desde então não publiquei mais nada no blog sobre o Olavo de Carvalho, por acreditar que já havia dito o suficiente. Para quem ainda não leu o artigo, basta procurar no blog a postagem “Por que a Filosofia de Olavo de Carvalho é Perigosa para a Fé Católica?” Eu reafirmo na presente data tudo o que então disse.
            Falemos agora de uma entrevista dada por Olavo recentemente. Lembrando, não é o conflito que busco, mas a discussão sincera em busca da verdade. Tentarei ser simples e ameno.
            Em entrevista para a “Carta Capital” ele disse certas coisas que me deixaram estarrecido. De boa vontade peço para que alguém me explique o significado de algumas coisas que ele disse, caso seja possível entendê-las de uma maneira favorável. Vejamos:

            Por volta dos 6 minutos ele presta tributo aos erros liberais ao dizer (referindo-se ao movimento “escola sem partido”): “...O termo está errado, o certo é o seguinte: ‘escola com todos os partidos’. Uma escola neutra, esse isentismo é uma ilusão pequeno burguesa, o que tem não é a escola sem ter nenhum partido é a escola tendo todos os partidos estar aberta a tudo é você ter o verdadeiro pluralismo...”  Ele está dizendo aqui (ou não está?)[2] que a verdade deve ter o mesmo espaço que o erro, trata-se de um erro liberal clássico. Absurdo condenado pela Igreja taxativamente, o livro de Lefebvre “Do Liberalismo à Apostasia” prova isso abundantemente. Faço, para exemplificar um raciocínio bem simples em forma de perguntas: o comunismo é uma ideologia assassina, anti-cristã e mentirosa? Resposta: sim. O comunismo e outros erros e heresias colocam as almas em perigo? Resposta: sim. É mais fácil ensinar o erro ou a verdade? Resposta: na maioria esmagadora das vezes é mais fácil ensinar e aprender o erro. Se você concedesse numa escola, ou onde quer que fosse, os mesmos direitos, o mesmo espaço e os mesmos meios para se ensinar o erro e para se ensinar a verdade, qual se sobressairia? Resposta: o erro. Isso é assim porque a natureza humana, devido ao pecado original, tende mais facilmente ao mal que ao bem; mais ao erro que à verdade. Logo, deixar o mesmo espaço para o erro e para a verdade é injusto porque o erro não tem direito algum; é ineficaz porque o erro se sobressairá, já que a verdade é muito mais exigente e difícil de ser obedecida.
            Talvez virão com a falácia de que grandes filósofos católicos se debruçaram sobre os erros e que na Idade Média havia muitas discussões e blá blá blá. O estudo dos erros por parte de filósofos católicos nada tem a ver com essa defesa de “pluralismo”, tem a ver com a extirpação dos erros. O liberalismo acredita que os erros têm o direito de existir e ter o seu espaço; o católico constata que o erro existe e crê que esse erro deve ser combatido e eliminado.
            Por volta dos 12 minutos olha só o que ele diz: “Olha, se o PT tivesse consultado a mim, eu teria dado para eles umas certas dicas... teria salvado o partido, mas são orgulhosos e burros... acham que sabem. Entrevistador: que dicas o senhor teria dado, Olavo? Olavo: Em primeiro lugar teria dado essa: vocês tem que acordar para o fato de que a destruição de todos os valores não fomenta a sua revolução, mas fomenta o grande capital; em segundo lugar: o PT no começo tinha lido muito Raimundo Fauro, o livro ‘Os Donos do Poder’ e chegou à conclusão que o problema no Brasil era o estamento burocrático quer dizer os donos do Estado, mas ao mesmo tempo eles estavam lendo Antônio Gramsci que recomendava a ocupação de espaços. Resultado: eles queriam destruir o estamento burocrático, mas eles com a ocupação de espaços eles mesmos se transformaram no estamento burocrático. Eu teria dito: não faça isso, porque você está lutando contra você mesmo e você vai terminar muito mal, você vai ser odiado, o povo vai vomitar em cima de vocês, como de fato aconteceu. Dava para consertar o PT vinte ou trinta anos atrás? Dava. Agora não dá mais...” Como é possível um aluno do Olavo ouvir isso e não ficar perplexo? Levanto a seguir duas hipóteses para tentar entender o que ele disse. 1- Ele salvaria o PT transformando o PT num partido decente, isto é, mudando a identidade do partido? Caso a resposta seja afirmativa então o PT, seguindo as dicas do Olavo, deixaria de ser um partido comunista. 2- Ele salvaria o PT mantendo o PT como um partido de esquerda? Nesse caso o PT se manteria como um partido de esquerda, mas abandonaria a estratégia de atacar os valores. Parece-me que a segunda hipótese é mais plausível, pois ele diz: “vocês precisam acordar para o fato de que a destruição de todos os valores não fomenta a sua revolução, mas fomenta o grande capital.” Nesse trecho fica claro que a revolução petista seria preservada e a dica seria justamente para que essa revolução não malograsse, ou seja, é como se o Olavo dissesse: “Querem que a revolução de vocês dê certo? Então sigam minhas dicas: parem de atacar todos os valores, etc etc.” Interpretei certo ou não? E agora como fica isso? Se Olavo de Carvalho fosse um bom filósofo não diria coisas desse tipo.
            Tem mais. Um pouco antes dos 26 minutos: “Olha meu filho, vou contar uma coisa para você: eu tenho cinqüenta anos de estudos filosóficos e essa pergunta “deve ser” é a pergunta que eu mais odeio, eu odeio o estudo do dever ser, eu me interesso pelo ser, pelo que acontece. Eu não estou aqui para prescrever regras de moral para ninguém.” Que contradição flagrante! Em primeiro lugar olha a epígrafe que ele escreveu no livro dele “O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota”: “Se você não é capaz de tirar de um livro conseqüências válidas para sua orientação moral no mundo, você não está pronto para ler este livro.” Precisa dizer mais alguma coisa? Precisa sim. Vamos lá. Por volta dos quarenta e um minutos ele diz: “Eu não sou o homem do dever ser eu sou o homem do ser. Pode ler tudo o que eu escrevi, a parte prescritiva ou normativa é ínfima ou inexistente.” O quê?! Os escritos dele são repletos de prescrições diretas ou indiretas. Tanto o “Dever Ser” quanto o Ser fazem parte da filosofia. Pode-se dizer, de modo resumido, que o estudo do Ser é o estudo sobre a natureza das coisas e o estudo do Dever Ser é o estudo do que é o certo e o errado. Ao estudar política, por exemplo, constata-se que as coisas estão de um modo, mas que deveriam estar de outro e as duas coisas devem ser estudadas, isso é claro como a luz do sol. O Estudo da ética, por exemplo, que também faz parte da filosofia, inclui o estudo do Dever Ser e prescreve as virtudes que devem ser alcançadas. Além do mais, toda vez que você aponta que uma coisa é boa você está prescrevendo, aconselhando; bem como, toda vez que você diz que algo é ruim você está aconselhando também, aconselhando para que se afastem do mal, pois está sempre subentendido que se deve fazer o bem e evitar o mal.
            Aí está! Uma entrevista de aproximadamente 47 minutos contendo erros, imprecisões, confusões e contradições. Isso faz parte de uma filosofia segura? Não. Isso é ter razão? Não. Logo, Olavo nem sempre tem razão. Tchau, muito obrigado!
           


[1] Nem ele mesmo, pois tomou conhecimento do artigo e não quis debater de modo aprofundado.
[2] Os malabaristas que o defendem incondicionalmente precisarão de muita habilidade para provar que ele não está dizendo isso.

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