Por Uma Intelectualidade Cristã!







sábado, 10 de novembro de 2018

AS BRINCADEIRAS E O PARAÍSO


           São Francisco de Sales em seu famoso livro “Filoteia” nos ensina que os seres e os acontecimentos deste mundo nos falam sobre Deus numa linguagem muda, mas muito eloqüente. Concedamos agora a palavra ao Santo para que possamos entender do que se trata:
           
            “Recebendo Santo Antão uma carta muito honrosa do Imperador Constantino Magno, e causando isso muita admiração aos religiosos, seus companheiros, o santo lhes disse: ‘Por que vos admirais que um rei escreva a um homem? Admirai antes a bondade infinita do Deus eterno pelos homens mortais, tendo-lhes escrito Ele mesmo a sua lei e falado a eles pela boca do seus próprio Filho.’
            São Francisco, notando num rebanho de bodes e cabras uma única ovelha, ponderou a seu companheiro: ‘Olha como ela é mansa e bela! Assim era também a brandura e mansidão do humilde Jesus no meio dos escribas e fariseus.’
...
            São Francisco de Borja, duque de Candia, este varão ilustre de nossos tempos, servia-se de todos os acontecimentos da caça para fazer pias reflexões. ‘Admirava-me, dizia ele um dia, depois da caça, a docilidade dos falcões, que tornam à mão dos caçadores, se deixam vendar os olhos e prender à percha, e espanta-me a indocilidade cega dos homens, sempre rebeldes à voz de Deus.’
...
            Eis aí, Filoteia, como de tudo o que acontece nesta vida mortal se podem deduzir pensamentos salutares e santas aspirações. Oh! Infelizes daqueles que usam das criaturas de um modo contrário à intenção do Criador. Bem –aventurados aqueles que procuram em tudo a glória do Criador e que usam da vaidade das criaturas para glorificar a verdade incriada.” (Filoteia, São Francisco de Sales, Parte II – Capítulo XIII).
           
            Quero nesta ocasião aproveitar o ensinamento dado por São Francisco de Sales e refletir sobre algo que está muito presente em meu cotidiano. Eu aprecio observar as crianças e refletir sobre seu comportamento. Busco assim entender por que Nosso Senhor nos mandou ser como elas e a quais aspectos da natureza infantil devemos nos ater. Embora eu não seja capaz de responder integralmente a questão, espero ao menos contribuir com algo.
            Poderíamos enquadrar as brincadeiras em vários tipos:
            1- Brincadeiras contemplativas: são as brincadeiras que visam apenas a fruição da beleza de certos processos naturais ou artificiais, por exemplo: fazer bolhas de sabão ou estourar bombinhas.
            2- Brincadeiras artísticas: são aquelas que imitam certas artes como pintura, escultura etc.
            3- Brincadeiras ficcionais: brinquedos e outros objetos são utilizados para criar situações hipotéticas e imaginárias.
            4- Brincadeiras desafiadoras: a criança procura ver se é capaz de fazer determinadas coisas como se equilibrar em algum lugar, pular de um lugar alto etc.
            5- Brincadeiras competitivas.
            6- Brincadeiras de diversão pura e simples: por exemplo, andar de bicicleta.
            Essa classificação que inventei acima não tem muita utilidade para o que quero dizer neste texto, mas a coloquei porque achei interessante e pode ser que venha a ter alguma utilidade ao ajudar o leitor a imaginar as brincadeiras e assim entender melhor as reflexões que farei a seguir.
            Analisando as brincadeiras pode-se notar que elas possuem uma semelhança com as atividades desenvolvidas na vida adulta, mas não é sobre isso que quero falar; a pergunta que cabe aqui é “o que as brincadeiras têm a ver com a finalidade da vida humana?” A resposta que dou é a seguinte: as brincadeiras estão, olhando por certo ângulo, mais próximas do Paraíso que as atividades eminentemente adultas. Muito cuidado, pois não defendo aqui, obviamente, que os adultos devam agir como crianças e toda essa patacoada sentimental que ouvimos por aí; faço apenas algumas ponderações, um tanto livres é verdade, que possam nos levar a ver semelhanças entre o Paraíso e as brincadeiras, sabendo, contudo, que “Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que o amam.” (I Coríntios 2, 9). Feitas essas ressalvas e pedindo que se utilize o bom senso tratemos de provar o que foi dito.
            O primeiro aspecto que quero ressaltar é que as brincadeiras infantis são pura fruição, quase sem mescla alguma de trabalho ou esforço. Como as crianças não possuem quase nenhuma responsabilidade, passam o tempo brincando e tudo o que fazem é como se fosse parte de suas brincadeiras. Quando eu era garoto, por exemplo, jogava bola debaixo de um sol escaldante e não sentia nenhum desconforto. Já o lazer adulto é mesclado de trabalho, esforço e certo tédio. O Paraíso é pura fruição: sem trabalhos, sem esforço e sem tédio.
            As crianças brincam porque é prazeroso, mas deve-se lembrar que ainda não possuem uma consciência bem formada, de modo que são impulsionadas para a brincadeira seguindo um impulso de sua própria natureza infantil e não por uma escolha plenamente deliberada. E ao agir assim, a criança nos indica que a natureza humana foi criada para uma felicidade sem fim e sem malícia; uma felicidade inocente e infinita. O Paraíso é uma felicidade sem fim e sem malícia; uma felicidade inocente e infinita.
            A criança dificilmente se cansa de brincar. Essa energia inesgotável das crianças é abordada por Chesterton em seu livro “Ortodoxia” e comparada ao fato de que também a Providência divina nunca se cansa de governar o mundo; assim como a criança diz “de novo, de novo” diante de uma brincadeira, Deus também diz “de novo” a cada instante, mantendo assim as coisas no Ser. É impossível se cansar do Paraíso.
            O adulto sente-se entediado com muito mais facilidade, pois várias coisas, em si encantadoras, lhe parecem triviais; já experimentou muitas mudanças e se acostumou a elas; tem uma sensibilidade maior para os limites desse mundo e sua caducidade. A criança se encanta mais facilmente, pois para ela muitas coisas ainda são novidade e, certamente, é mais fácil contemplar aquilo que é novidade. O Paraíso é o encanto de uma eterna, infinitamente bela e magnífica novidade.
            O adulto deseja o sono. A Criança dificilmente deseja o sono, ela deseja o descanso, mas o descanso das brincadeiras. E nisso também as crianças fazem lembrar o Paraíso, pois este não é o descanso do sono, mas o descanso de uma contemplação sem fim.
            Todos nós, com exceção de Maria Santíssima, fomos feridos pelo pecado original. As crianças também possuem inúmeras imperfeições, mas é inegável que possuem uma pureza e uma inocência características. Parecem-me sinais deixados por Deus para que pudéssemos sempre nos lembrar do que significa a santidade. De fato tudo nelas parece estar mais próximo do Paraíso e é impressionante ver como aderem facilmente ao amor divino. O Paraíso é o amor divino.
            As brincadeiras das crianças podem nos fazer recordar do que há de mais sério nesta vida.
           

6 comentários:

  1. Parabéns pela postagem!
    Ah as crianças... 🙏🏾🙏🏾🙏🏾

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    1. Muito obrigado! Observando as crianças pode-se aprender muitas coisas. Salve Maria!

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  2. Ótimo texto! Mesmo estando acostumada com sua escrita sempre me surpreendo com as novas postagens. Esse texto em especial me cativou pela sua genuinidade e a forma simples que você abordou o tema. As crianças realmente tem muito a ensinar. Obrigada pelo texto e por estar postando com mais frequência ;)

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    1. Muito obrigado! Minha nova meta é postar um artigo por semana, por enquanto estou conseguindo. Salve Maria!

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  3. carlaalvessantori999o@gmail.com13 de novembro de 2018 às 17:17

    Parabéns pelo artigo!
    Acredito que o senhor já tem conteúdo para um segundo livro :D

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    1. Muito obrigado pelo apoio! Realmente espero escrever mais livros se for da Vontade de Deus. Salve Maria!

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