Por Uma Intelectualidade Cristã!







sábado, 15 de dezembro de 2018

Quem lê?


              Ouvindo um sermão de Dom Tomás de Aquino[1], deparei-me com uma indagação importante: “Quem lê? Quem entende o que leu? Quem retém o que entendeu?” são três perguntas que retratam três níveis diferentes. O primeiro nível pergunta pelos meros leitores; o segundo nível pergunta por aqueles que possuem inteligência e a aplicam para entender as coisas; o terceiro nível pergunta por aqueles que retêm na memória o que entenderam. Poderíamos acrescentar mais algumas perguntas nessa indagação: “Qual o valor daquilo que se leu?”; “O leitor colocou em prática a verdade entendida tornando-se assim mais virtuoso?” Essas indagações fazem-me lembrar da parábola do semeador, que diz que apenas a terra boa produz frutos: “A terra boa semeada é aquele que ouve a palavra e a compreende, e produz fruto...” (Mateus 13, 23).
            A leitura não é um fim em si mesmo como amiúde deixam entender certos incentivos propagandísticos a tal prática. A leitura é apenas um meio para aprender algo. E, assim como se podem aprender coisas ruins, podem-se fazer leituras ruins. Se a mera leitura fosse um fim em si mesmo, o Brasil seria um país de grandes leitores, pois não se pode negar que as pessoas lêem muito, senão vejamos: se for somado tudo o que o brasileiro médio lê por dia no WhatsApp e no Facebook quantas páginas dariam?
            Essas ferramentas da internet lançam seus usuários num ritmo alucinante no qual se passa de uma informação à outra com grande celeridade; informações desencontradas: passa-se do cômico ao urgente; do profundo ao superficial; do pessoal ao público e assim por diante. É o reino da desconcentração, da dispersão, da dissipação, da distração, do prazer instantâneo que nasce e já começa a morrer para dar lugar a um novo desejo por novidade que luta por ser satisfeito e uma vez satisfeito começa novamente a definhar para dar lugar a outro num ciclo interminável. Esse péssimo hábito, quando transposto para o universo da leitura de livros, faz com que o interesse por estes seja drasticamente diminuído, e mesmo quando se se resolve a ler um, este é logo abandonado sem ser percorrido em benefício de outro que parece ser mais interessante, este por sua vez também é abandonado e a vida real começa a se tornar o pesadelo de uma tela que rola ao sabor de dedos afoitos numa busca interminável por novidades.
            Tendo em vista, portanto, que a leitura não é um fim, mas um meio e um meio para aprender algo, devemos nos fazer a seguinte pergunta: o que devemos aprender? A resposta pode ser resumida no seguinte: devemos aprender em primeiríssimo lugar àquilo que se refere à nossa eterna salvação; devemos aprender também aquilo que se refere ao cumprimento de nossos deveres de estado[2]; o que se refere ao exercício da profissão que exercemos; e por fim o que se refere à aquisição de uma cultura elevada. Obviamente não estou advogando aqui que todos se tornem intelectuais de alto nível, mas acredito que todos, na medida de suas condições e seu estado de vida, devem buscar aprender o máximo possível, sobretudo no que toca à salvação.
            A leitura não é a única forma de aprender, aprende-se também ouvindo. No entanto há uma escassez muito grande de bons pregadores e bons professores. Quem os tem à disposição desfruta de um grande privilégio, mas quem não os tem há de necessariamente recorrer aos livros. Se nos faltam homens recorramos aos livros; se a verdade escasseia nas bocas que a busquemos nos escritos. Os livros não podem substituir os bons professores e bons pregadores, mas certamente ajudam a suprir essa premente necessidade. Para os que possuem pessoas sábias que lhes ensinem os livros serão valiosos auxiliares; para os outros restam apenas os livros, mas a ninguém falta a graça de Deus que auxilia a todos que a Ele recorrem.
            Nessa época em que o fim do ano se aproxima é um bom momento para fazermos um exame de consciência sobre o que temos lido, sobre o que temos aprendido; sobre o que guardamos em nossa memória e sobre o que temos praticado das coisas boas que aprendemos. Salve Maria!

INDICAÇÃO DE ALGUNS LIVROS

1- Catecismo de São Pio X;
2- Filoteia, São Francisco de Sales;
3-Imitação de Cristo, Tomás de Kempis;
4- A Alma de Todo Apostolado, Jean-Baptiste Chautard;
5- Confissões, Santo Agostinho;
6- Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de Montfort.
7- Do Liberalismo à Apostasia, Mons. Lefebvre.


[1] Sermão dentro da Oitava da Epifania – Dom Tomás de Aquino, OSB – 2018. (disponível no YouTube). Dom Tomás de Aquino é Prior do Mosteiro da Santa Cruz, localizado em Nova Friburgo RJ
[2] Devemos, por exemplo, aprender aquilo que nos ajuda a cumprir satisfatoriamente nossos papéis de pai e esposo ou de mãe e esposa.

2 comentários:

  1. Muito importante! Se todos filtrassem o que leem e buscassem leituras com profundidade, certamente teríamos pessoas mais centradas e devotas do que superficiais e fracas na fé!
    🙏🏾👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

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