Ouvindo
um sermão de Dom Tomás de Aquino[1],
deparei-me com uma indagação importante: “Quem lê? Quem entende o que leu? Quem retém
o que entendeu?” são três perguntas que retratam três níveis
diferentes. O primeiro nível pergunta pelos meros leitores; o segundo nível
pergunta por aqueles que possuem inteligência e a aplicam para entender as
coisas; o terceiro nível pergunta por aqueles que retêm na memória o que
entenderam. Poderíamos acrescentar mais algumas perguntas nessa indagação:
“Qual o valor daquilo que se leu?”; “O leitor colocou em prática a verdade
entendida tornando-se assim mais virtuoso?” Essas indagações fazem-me lembrar
da parábola do semeador, que diz que apenas a terra boa produz frutos: “A
terra boa semeada é aquele que ouve a palavra e a compreende, e produz
fruto...” (Mateus 13, 23).
A leitura não é um fim em si mesmo
como amiúde deixam entender certos incentivos propagandísticos a tal prática. A
leitura é apenas um meio para aprender algo. E, assim como se podem aprender
coisas ruins, podem-se fazer leituras ruins. Se a mera leitura fosse um fim em
si mesmo, o Brasil seria um país de grandes leitores, pois não se pode negar
que as pessoas lêem muito, senão vejamos: se for somado tudo o que o brasileiro
médio lê por dia no WhatsApp e no Facebook quantas páginas dariam?
Essas ferramentas da internet lançam
seus usuários num ritmo alucinante no qual se passa de uma informação à outra
com grande celeridade; informações desencontradas: passa-se do cômico ao
urgente; do profundo ao superficial; do pessoal ao público e assim por diante.
É o reino da desconcentração, da dispersão, da dissipação, da distração, do
prazer instantâneo que nasce e já começa a morrer para dar lugar a um novo
desejo por novidade que luta por ser satisfeito e uma vez satisfeito começa novamente
a definhar para dar lugar a outro num ciclo interminável. Esse péssimo hábito,
quando transposto para o universo da leitura de livros, faz com que o interesse
por estes seja drasticamente diminuído, e mesmo quando se se resolve a ler um,
este é logo abandonado sem ser percorrido em benefício de outro que parece ser
mais interessante, este por sua vez também é abandonado e a vida real começa a
se tornar o pesadelo de uma tela que rola ao sabor de dedos afoitos numa busca
interminável por novidades.
Tendo em vista, portanto, que a
leitura não é um fim, mas um meio e um meio para aprender algo, devemos nos
fazer a seguinte pergunta: o que devemos aprender? A resposta pode ser resumida
no seguinte: devemos aprender em primeiríssimo lugar àquilo que se refere à
nossa eterna salvação; devemos aprender também aquilo que se refere ao
cumprimento de nossos deveres de estado[2];
o que se refere ao exercício da profissão que exercemos; e por fim o que se
refere à aquisição de uma cultura elevada. Obviamente não estou advogando aqui
que todos se tornem intelectuais de alto nível, mas acredito que todos, na
medida de suas condições e seu estado de vida, devem buscar aprender o máximo
possível, sobretudo no que toca à salvação.
A leitura não é a única forma de
aprender, aprende-se também ouvindo. No entanto há uma escassez muito grande de
bons pregadores e bons professores. Quem os tem à disposição desfruta de um
grande privilégio, mas quem não os tem há de necessariamente recorrer aos
livros. Se nos faltam homens recorramos aos livros; se a verdade escasseia nas
bocas que a busquemos nos escritos. Os livros não podem substituir os bons
professores e bons pregadores, mas certamente ajudam a suprir essa premente
necessidade. Para os que possuem pessoas sábias que lhes ensinem os livros
serão valiosos auxiliares; para os outros restam apenas os livros, mas a
ninguém falta a graça de Deus que auxilia a todos que a Ele recorrem.
Nessa época em que o fim do ano se
aproxima é um bom momento para fazermos um exame de consciência sobre o que
temos lido, sobre o que temos aprendido; sobre o que guardamos em nossa memória
e sobre o que temos praticado das coisas boas que aprendemos. Salve Maria!
INDICAÇÃO DE ALGUNS LIVROS
1-
Catecismo de São Pio X;
2-
Filoteia, São Francisco de Sales;
3-Imitação
de Cristo, Tomás de Kempis;
4-
A Alma de Todo Apostolado, Jean-Baptiste Chautard;
5-
Confissões, Santo Agostinho;
6-
Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem, São Luís Maria Grignion de
Montfort.
7-
Do Liberalismo à Apostasia, Mons. Lefebvre.
[1] Sermão
dentro da Oitava da Epifania – Dom Tomás de Aquino, OSB – 2018. (disponível no
YouTube). Dom Tomás de Aquino é Prior do Mosteiro da Santa Cruz, localizado em
Nova Friburgo RJ
[2] Devemos,
por exemplo, aprender aquilo que nos ajuda a cumprir satisfatoriamente nossos
papéis de pai e esposo ou de mãe e esposa.
Muito importante! Se todos filtrassem o que leem e buscassem leituras com profundidade, certamente teríamos pessoas mais centradas e devotas do que superficiais e fracas na fé!
ResponderExcluir🙏🏾👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼
Exatamente! Muito obrigado! Salve Maria!
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