Gostaria
de dar minha contribuição a respeito de uma controvérsia moral que tem dado
muita discussão entre católicos nos últimos dias. Trata-se da suposta cura de
um pedófilo. Tal pedófilo teria procurado[1]
um famoso psiquiatra que, para eliminar deste paciente seu desejo por crianças,
teria recomendado um esdrúxulo tratamento baseado no uso de prostitutas. O
resumo dos fatos é o seguinte: um homem com tendências à pedofilia que nunca
tinha executado o ato, mas temia que viesse a fazê-lo, procurou o psiquiatra.
Devido aos seus desejos desordenados pensava em suicídio. O psiquiatra chegou à
conclusão de que seu paciente deveria experimentar prazer sexual com uma
“figura infantil” que não fosse criança, no caso uma prostituta adulta que
fosse fisicamente semelhante a uma criança. Num segundo momento a prostituta
escolhida deveria afastar-se um pouco da semelhança infantil e assim
gradativamente até que o paciente chegasse a ter desejo por mulheres adultas e
não mais por crianças. O tratamento teria durado aproximadamente seis meses. Os
parágrafos que se seguem destinam-se a provar que a conduta do psiquiatra foi
imoral e de eficácia altamente duvidosa.
O agir moral baseia-se nos
princípios ensinados por Nosso Senhor Jesus Cristo através da Igreja (dez
mandamentos, leis da Igreja etc.), a aplicação desses princípios nos casos
concretos deve ser guiada pela virtude da prudência, de modo que alguém
prudente é alguém que sabe aplicar os princípios morais nas situações que a
vida apresenta. O caso em questão gera disputas intermináveis devido ao fato de
que o expediente utilizado pelo psiquiatra teria levado à cura do indivíduo, o
que leva a pensar que houve ali uma opção pelo mal menor. Ora, o princípio do
mal menor não se aplica ao caso, pois tal princípio diz que diante de males inevitáveis escolhe-se o menor; o uso de
prostitutas não era a única saída e, portanto, não pode ser considerado o mal
menor, isto é, não era “inevitável” o uso de prostitutas para resolver o
problema do paciente. Além disso, ainda que o único meio de auxiliar o paciente
fosse recomendando o uso de prostitutas, tampouco seria lícito porque tal
recomendação opor-se-ia ao princípio de que os fins não justificam os meios.
Não se pode fazer algo intrinsecamente imoral mesmo que disso advenha uma boa
conseqüência, por exemplo: não se pode mentir para converter alguém. O
procedimento do psiquiatra contrariou tal princípio, pois o fim (curar a
pedofilia) justificaria o meio utilizado (uso de prostitutas), o que é
inaceitável. Ele fez um mal (recomendou um pecado) para atingir um bem (a
cura). Por meio desses raciocínios, relativamente simples, chega-se à conclusão
indubitável de que o tratamento recomendado foi moralmente ilícito.
Quanto à eficácia do tratamento
começarei contando uma anedota que ouvi de um amigo. Um sujeito era viciado em
cigarros e resolveu seguir a sugestão de um amigo que lhe disse para pôr um
palito de dentes na boca toda vez que tivesse vontade de fumar; posteriormente
seguiu outra sugestão que lhe dizia para colocar na boca uma bala de hortelã
com o mesmo propósito. Resultado: o sujeito terminou com três vícios: cigarro,
palito e bala de hortelã. Mutatis mutandi
essa piada aplica-se ao caso, veja: o psiquiatra diz que seu paciente foi
curado, mas alguns instantes de reflexão são suficientes para que duvidemos
dessa cura. A considerar os fatos como verdadeiros, de fato despertou-se no
paciente o desejo por mulheres adultas, mas seria preciso saber se tal desejo
(por mulheres adultas) já existia, pois se já existia não se pode atinar por
que tal expediente teria provocado a cura; se o desejo por mulheres adultas não
existia e foi despertado através do tratamento tampouco nos leva a concluir
pela eficácia da cura. Os dois tipos de desejos podem coexistir, pois não é
absolutamente necessário que um anule o outro. Sendo assim, o que nos impediria
de pensar que o que ocorreu foi apenas uma distração momentânea? O foco de
desejo pode ter sido apenas momentaneamente desviado. Citando Carlos Nougué
devemos dizer que um vício não pode ser curado com outro vício, mas tão somente
com a virtude oposta. Levando em conta que a virtude é a única garantia de
cura, fica difícil acreditar que o paciente tenha sido solidamente curado e
nada nos impede de dizer que há sim a probabilidade de que tenha saído desse
tratamento pior do que entrou.
Há também algumas inconsistências na
própria narração. O tratamento teria durado seis meses. Ora, se o indivíduo já
estava desesperado e pensando em suicídio, temendo que expressaria em ato seus
desejos desordenados como pôde aguentar seis meses?! Será que apenas a
frequência ao prostíbulo seria capaz de mantê-lo afastado de cometer o nefando
crime de consumar a pedofilia, tendo em vista que ainda não estava plenamente
curado? O que mais foi feito em seu tratamento?
Não sei absolutamente nada de
psiquiatria, o que trato aqui é apenas a parte moral. Porém, nessa discussão
toda uma pergunta se impõe: como o psiquiatra deveria ter agido? Sei que a
forma como ele agiu está errada por ter ferido gravemente os princípios morais,
mas sugerir como deveria ter agido enquanto psiquiatra realmente não sei e não
cabe mim sabê-lo. Ainda assim cogito algo que poderia ter sido feito durante o
tratamento, uma ação bem óbvia na verdade. Enquanto durasse o tratamento (feito
sem ferir os princípios morais) o psiquiatra poderia ter prescrito ao paciente
que colocasse alguém de sua inteira confiança para vigiá-lo, não permitindo que
ele chegasse perto de nenhuma criança.
[1]
Não cabe a mim apurar a veracidade dos fatos, trato aqui apenas da controvérsia
moral em si. Baseio-me na narrativa dada pelo próprio psiquiatra.
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