A
Tradição da Igreja já deve ter dado muitas explicações e interpretações
satisfatórias a respeito das tentações que Cristo sofreu no deserto. Sem querer
ir contra qualquer interpretação autorizada gostaria, no entanto, de tecer
alguns comentários que me ocorrem. Se eu disser apenas o que já foi dito
contento-me com haver refletido sobre o assunto e repetido as verdades
católicas; mas se eu errar em algo desde já renuncio ao erro e me submeto à interpretação
correta dada pela Igreja.
As tentações do Demônio parecem, à
primeira vista, bem pueris: transformar pedras em pães; se lançar do alto do
templo; adorá-lo. Elas só adquirem um significado profundo quando são vistas
como paradigmas ou como símbolos universais das tentações que o homem sofre
neste mundo. Outra coisa que faz com que soem pueris é o fato de serem
apresentadas ao próprio Deus que é por essência imutável e incorruptível.
Acredito que o mistério da Encarnação estava escondido para o Demônio; esta
seria uma forma de explicar sua ousadia. Corrobora essa hipótese o uso, nas
duas primeiras tentações, da condicional “Se
és Filho de Deus...” como se estivesse provocando e ao mesmo tempo
sondando. Outra coisa que chama a atenção é a fraca retórica utilizada pelo
tentador: apresenta as tentações de modo simples e direto, bem diferente dos
longos diálogos sofísticos que emprega quando tenta os homens. Talvez a razão
dessa fraca retórica seja o modo categórico e inapelável com que Jesus
responde; Ele não dialoga com o Demônio, Ele o vence. Isso nos ensina a não
dialogar com as tentações e nos mostra que se o Demônio é muito mais desenvolto
conosco é porque não nos dispomos, muitas vezes, a respondê-lo com a decisão
necessária.
As duas primeiras tentações mais
parecem provocações; já a última se afigura muito mais séria: a proposta de um
pacto, de uma troca. E nesta diferença entre as tentações mostra-se algo
característico das investidas diabólicas: o uso de rodeios para chegar aonde
realmente quer. Olhando por este ângulo parece claro que aquilo que o Demônio
principalmente queria está expresso na última tentação: ser adorado.
Nas duas primeiras tentações o Diabo
pede um voltar-se desordenado para si mesmo; um envaidecer-se; uma demonstração
de poder etc.: “Se és Filho de Deus...”
são as tentações do orgulho. Na última pede uma humildade às avessas: pede para
que Jesus se submeta a um outro, no caso ao próprio Demônio. Aqui se nota
novamente um “crescendo”: do culto de si mesmo para o culto ao Tentador. O
culto de si mesmo se dirige para o culto satânico; e se nem sempre o orgulho
humano desemboca no satanismo explícito, não se pode negar que na soberba já
há, ao menos implicitamente, um pacto com o adversário. Assim como o bem
verdadeiro nos leva para a fonte de todo o bem, o orgulho nos leva para o
primeiro orgulhoso.
É de se notar que o Tentador oferece
bens temporais nas três tentações. Por que não oferece bens eternos? Não é ele
um grande mentiroso? Não costuma oferecer o que não pode dar? Por que então,
nesse ponto, parece haver nele certa sinceridade ao não oferecer um bem
infinitamente mais perfeito? Poderia, por exemplo, oferecer o Paraíso em vez de
reinos com suas glórias efêmeras. Contudo não há sinceridade no pai da mentira;
bem diversa é a razão que o leva a oferecer apenas bens temporais. Se
oferecesse bens eternos acabaria por inocular certa boa vontade no homem,
fazendo-o tender para o sobrenatural, fazendo-o preferir a beatitude que só
Deus pode dar; voltar-se-ia então contra si mesmo e acabaria por fazer o homem
voltar-se para Deus. O Demônio parece assim obrigado a oferecer as quimeras
passageiras deste mundo cheio de ilusões; por isso os erros que propaga sempre
desembocam no materialismo. Nosso Senhor, pelo contrário, vence todas as
tentações citando Deus e apontando para os bens eternos: “Não só de Pão vive o homem...Não tentarás o Senhor teu Deus... e só a
Ele servirás”.
A natureza angélica é mais perfeita
que a natureza humana. Rebaixando-nos ao mundo natural, o Demônio nos coloca em
desvantagem e nos vence inexoravelmente; não é sem razão que Nosso Senhor
venceu as três tentações fazendo referência a Deus, pois Deus pode nos elevar
ao plano sobrenatural da Graça, o que não nos impedirá de sermos tentados, mas
teremos ao nosso lado a Santíssima Trindade, Nossa Senhora, São José, os Santos
todos, São Miguel, São Rafael, São Gabriel, o nosso anjo da guarda e todos os
demais anjos da corte celeste. Assim o desfecho das tentações sofridas por cada
membro do corpo místico será o mesmo que tiveram aquelas que sua adorável
cabeça sofreu no deserto.
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